11/9 – O dia que implodiu meu mundo

No fim, eu não consegui nem ajudar a mim mesmo. Eu não consegui proteger ninguém.

Esse é um relato de guerra, de raiva e de revolução. Foi escrito em Setembro de 2017 e só publicado um ano depois. É a história de um cara que queria mudar o mundo, mas que viu seu próprio mundo mudar bem mais.

Era uma manhã de terça feira. Trabalhava em uma escola onde ensinava informática para crianças. Eu precisava trabalhar. Recém completado 18 anos, presenciei minha mãe chorando porque não tinha dinheiro nem para fazer um bolo de aniversário. Eu precisava fazer alguma coisa. Já era um homem adulto. A única coisa que eu sabia era mexer em computadores e consertá-los. Fui ensinar crianças.

Me lembro desse dia como se fosse agora. Um aluno entra correndo na sala, o Fernando – ele só tinha 12 anos. Gritava “tio Davi, tio Davi” – assim me chamavam meus alunos. “Vem pra sala de vídeo – estão vendo o plantão da globo! Atacaram os Estados Unidos!”. Eu não entendi nada na hora, mas segui o Fernando até a sala de vídeo da escola, onde estavam todos boquiabertos assistindo ao noticiário. As informações ainda eram desconexas pela manhã…  mas o que se mostrava era que aviões se chocaram contra dois prédios em Nova Iorque – o World Trade Center. Era 11 de Setembro de 2011.

Meus alunos choravam. Viam a cena repetidamente na TV – o segundo avião se chocando, enquanto o outro prédio ainda estava em chamas. Alguns faziam chacota da situação. Entrou na sala um homem cuja identidade vou preservar – o Gerente Administrativo da escola, um sujeito asqueroso, que mais tarde descobriu-se que ele desviava dinheiro da instituição e fugiu quando foi descoberto. Esse idiota entrou dizendo “olha crianças, vão convocar o tio Davi pra ele ir pro Afeganistão, estão chamando os reservistas” – em tom de deboche, por eu ter sido recentemente alistado.

As crianças não entendiam bem o que isso significava. Mas na medida que as notícias avançavam –  e as cenas das torres desabando, os repórteres já falavam em suspeitos, terrorismo, reação, guerra iminente. Há poucos dias atrás a Globo havia exibido “O Resgate do Soldado Ryan”. A Internet se popularizava e se tornava acessível. As pessoas já tinham uma boa noção do que era a guerra. Isso sim minhas crianças entendiam. E por falar nisso – havia uma ironia em tudo isso. O então presidente americano, George W. Bush – também havia recebido a notícia do ataque quando estava em uma escola infantil, na Flórida. Obviamente só fui descobrir isso anos depois quando tive coragem de rever os acontecimentos daquele dia.

Victoria, minha aluna de 5 anos, me abraçou na altura dos joelhos e começou a chorar “Tio Davi, não quero que você vá pra guerra”. Eu precisava me acalmar e fazer as crianças saberem que o “tio asqueroso” estava fazendo uma brincadeira, que aquilo era coisa de adulto, e que elas estavam seguras aqui no Brasil, e que nada iria acontecer comigo ou com elas e que podiam ficar tranquilas. Eu queimava por dentro – onde tudo era incerteza, minhas vontades começaram a mudar, a evoluir para uma visão de futuro mais sombria. Eu ainda sufocava tudo e tentava acalmar meus alunos. Mas eu estava aprendendo a ser homem, a ser pai, a ser duro, a ser frio, a ser calmo… muito rapidamente. Aquilo moldava meu caráter e meu DNA. Até então a vida era um sonho abstrato, confuso, que aos poucos se convertiam para uma visão lúcida, realista, fria e dura da providência da situação que eu estava presenciando e alterando o meu ser.

A aula foi suspensa. Os alunos do curso integral – que não podiam ser dispensados, pois seus pais só os buscariam ao final do dia, permaneceram na escola. Fiquei ali ajudando as crianças a se concentrarem nas suas realidades e esquecer aquele dia sombrio. No fim, eu não consegui nem ajudar a mim mesmo. Eu não consegui proteger ninguém. Voltei pra casa, assisti aos jornais. Revi tudo. Passei os dias seguintes destilando minha sensação de impotência.

Precisava ser alguém, fazer algo, combater o mal, proteger o mundo, e tantos outros pensamentos quixotescos de um cara perdido na vida

Vi um anúncio no jornal que me chamou a atenção. Sobre uma escola preparatória para concursos militares. Resolvi ir me inteirar do assunto. Conheci a Elaine, que me mostrou os panfletos e apostilas dos cursos preparatórios que não eram acessíveis para mim. Estava encantado pelo curso da Escola Naval. Mas não tinha mais tempo hábil para ingressar, pois já havia completado 18 anos. Mas restava ainda o da Força Aérea Brasileira. Eu podia prestar aquele concurso e me tornar um Oficial Combatente. Elaine me deu o folheto com o site da FAB e instruções do concurso. Não fiz o preparatório, mas fui me inscrever naquele concurso assim mesmo. Estudei com os recursos que tinha. Meses depois saiu o resultado e não passei. Não tinha preparo pra um vestibular, tampouco para um concurso desse nível de exigência.

Eu ainda sentia o peso da urgência. Precisava ser alguém, fazer algo, combater o mal, proteger o mundo, e tantos outros pensamentos quixotescos de um cara perdido na vida, movido a experiências ruins e circunstâncias sombrias daquele ano. Minha família reagiu mal a tudo aquilo. Não me apoiavam diretamente. Eu era duramente criticado por minhas más decisões – que embora fossem minhas, só minhas, me desqualificavam como pessoa perante a própria família. Então interviam como sabiam fazer: “tome aqui este concurso público e faça ele. Tem muitas vagas, você tem maiores chances“. Assim ingressei no Governo, pois já não tinha mais chances de ser militar, de mudar o mundo, de proteger os inocentes e, supostamente, nem de cuidar de mim mesmo.
Maktub. Estava escrito. Não era pra ter sido diferente. Eu não estava destinado às forças armadas. Estava destinado a outras coisas muito maiores, sem limites.

Assim começa uma nova e longa jornada, com experiências que me fizeram superar e passar a limpo toda a raiva, todos os medos, todas as incertezas. Desta forma me tornei pragmático demais em muitas coisas – mas por pressa na vida, e não por sabedoria. Houve muita luta e aprendizado para chegar onde cheguei hoje. Mas tenho certeza que vou mudar o mundo. Não pilotando um caça, mas pilotando algumas ideias que vão germinar no sentimento de cada um. Com Educação. Com pesquisa. Com conteúdo. Com inteligência. Ajudando algumas pessoas, que vão ajudar outras, e assim por diante.

Um dia muda tudo. Uma vida inteira.

O mundo mudou depois de 11 de setembro de 2011, especialmente o meu mundo.

 

(em memória às milhares de vidas perdidas no World Trade Center, jamais esquecidas)

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